segunda-feira, 7 de março de 2011

A fotografia

Todos os dias aquela hora, ia sentar-se na mesa da cozinha e via através da janela, o sol a pôr-se.
Não era uma boa altura do dia, pelo contrario, acabava sempre por pensar naquilo que tinha perdido, na vida que tinha deixado fugir.
Não era infeliz, pelo contrário...Mas sentia um grande vazio, como se estivesse em divida para si própria por não ter conseguido realizar os seus sonhos.
Estes momentos nunca duravam muito tempo. O sol era rapidamente tapado pelas árvores e pelos carros estacionados ao longo da rua. Estava na hora de continuar com a vida e com as suas tarefas.
Fechava todas as janelas e ligava as luzes. Fazia o jantar e chamava os filhos.
Já depois de os deitar, ia para o seu quarto. Apagava todas as luzes, sentava-se aos pés da cama e deixava as lágrimas correrem pela cara abaixo. Sentia a agua salgada a bater no peito e nos joelhos. Nunca gritou, nunca soluçou e as lágrimas continuavam a cair.
Houve um dia, em que o luar forçou de alguma forma as cortinas e iluminou a cómoda que ela mantinha perto da cama. No topo da mesma, estavam fotografias, fotografias dos seus antepassados misturadas com inúmeras fotografias dos seus filhos e no meio de todas elas, estava uma moldura para a qual ela raramente olhava. na verdade, já nem se lembrava dela. Mas foi para lá que o seu olhar foi levado naquele momento em que a luz da noite entrou no quarto escuro.
Era uma fotografia de um grupo de amigos, do seu grupo de amigos. Quanto tempo teria aquela fotografia? 10? 15 anos? Agarrou nela e voltou para a cama. Deitou-se de costas e levantou a fotografia.
Começou a percorrer os 10 rostos com os olhos e os dedos.
Lembrava-se tão bem da noite em que aquela fotografia fora tirada...Foi numa festa em sua casa. Na sua primeira casa, naquele apartamento velho e sujo onde fora tão feliz. A casa estava cheia, todos bebiam e comiam alegremente, a música estava alta e o fumo enchia o ar. Devido a uma dor de cabeça ela tinha saido para a varanda e subido a escada que dava acesso ao telhado. Lembrava-se como se fosse hoje, do ar frio que inspirou bem fundo, naquela noite de Dezembro. Rapidamente o seu amor, com quem dividia as velhas paredes daquela casa, veio ter com ela, e com ele vieram os outros oito. conheciam-se à anos. Eram como uma família. Juntos acabaram por passar ali a noite, beberam, riram imenso e deitados nas telhas velhas e rachadas falaram pela milésima vez dos seus sonhos. Quantos filmes iriam realizar, quantos prémios iriam ganhar, quantos livros iriam escrever, quantas vidas iriam mudar. Aquela noite não foi especial, não foi diferente. Nada de novo foi dito nem sentido. Foi apenas recordada através da tal fotografia. Foi uma das raparigas que disse que não se queria esquecer daquele momento. Estava a estudar jornalismo e andava sempre com a câmara. Ainda caiu umas quantas vezes devido ao álcool que lhe corria nas veias, mas por fim conseguiu montar a câmara e correr para junto dou outros antes do flash disparar.

Há quanto tempo não falava com os rostos daquela fotografia? Lembrava-se que a ultima vez que olhara para o objecto tinha sido na manhã do funeral de um deles, da fotografa.
Ainda estava casada nessa altura...Mas agora, já tudo tinha acabado...O casamento, a vida, os sonhos...Tantos sonhos...Perderam-nos no meio da sua própria procura.
Não, ela não era infeliz, o sol é que se estava a pôr.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010



Todos Nós temos aqueles momentos que são tão
perfeitos que independentemente de onde o nosso
corpo for, de onde a nossa alma for,
eles vão ser eternos.

domingo, 5 de dezembro de 2010

*

Minha pequenina, que estás sentada nos tijolos...A minha música é a tua voz.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Once Upon a December

Lá estava eu a olhar para o céu e a sentir-me perfeitamente bem debaixo dele...
E mais iluminada que nunca, vi-o tão melhor.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O regresso a si

Naquela manhã Verónica saiu de casa...
Era um dos dias mais frios do ano, o mar estava batido mas o sol estava alto e o céu daquele azul claro de inverno.
Verónica tinha o seu longo cabelo solto, usava uma antiga camisa do irmão. Por vezes o seu cheiro fazia querer que ele estava ali e isso reconfortava-a.
Quando chegou à praia o vento estava de tal forma violento que não conseguia manter os olhos abertos. Descalçou-se e começou a caminhar.
Agora já estava bem, já se tinha habituado à ausência do irmão e já tinha feito paz com a partida do seu amor. Não estava escrito, simplesmente não estava escrito. Sabia que o irmão eventualmente voltaria, nos últimos tempos nem era por ele que o seu coração chorava. Chorava sim por aquele a quem ela se tinha dado, mas que o destino roubara. E doía... Mas a culpa era sua por ter feito o que fez, aquele não era o seu lugar.
Não, chega de pensar mais nele, chega de pensar também em Pedro, chega de pensar no que poderia ter sido, no que poderia ter feito diferente, em quem perdera.
Estava frio, estava objectivamente muito frio...Já não tinha mais lágrimas, não iria chorar mais...
Quando acabou este pensamento um sorriso involuntário apareceu-lhe no rosto e naquele momento decidiu subir às rochas cinzentas que dividiam a praia da cidade.
Deixou os sapatos a beira mar, percorreu o areal e começou a subir. Chegou lá a cima com os pés, as mãos e os joelhos em ferida e sorriu de novo. Sentou-me, abraçou os joelhos e pôs a cara entre os mesmos, agora só via o mar... Afastou da cabeça e do coração as fantasias de criança que tinha naquele mesmo lugar, onde via o pai e o irmão chegarem no seu barco...
Nada disso interessava agora, agora só ela, o céu e o mar tinham importância. Sorriu novamente, abanou a cabeça afastando os cabelos da cara que voltou a meter entre os joelhos. Durante instantes pareceu-lhe que alguem a abraçava por trás, mas ao virar-se não viu ninguém...

terça-feira, 30 de novembro de 2010

--'

Já tentei escrever-nos tantas vezes...Pedi Luz e chegaste pela luz...Estava escrito...Tinhas que entrar na minha vida para me mostrar qual o meu caminho e durante algum tempo caminhar a meu lado...Agora pergunto-me...Qual é o nosso Destino agora que já o cumprimos?Será que em alguma linha temporal por ai perdida continuamos a conhecer-mo-nos? Continuaremos abraçados? Será que nalgum tempo por ai deixado ao acaso seremos eternos?
Seremos eternos onde fomos felizes...Seremos eternos no debaixo dos holofotes seremos eternos nos braços um do outro, serei eterna enquanto me lembrar de como me levantaste do chão, enquanto me lembrar que tive parte de mim no palco que pisaste, serás eterno enquanto te lembrares que estive sempre lá. Seremos eternos enquanto não nos esquecermos...Foi o que foi sonhei, sonhei o que sonhei...Ensinaste-me muito, mas o mais importante que aprendi foi que os sonhos se realizam, e ao teu lado realizei todos os que alguma vez tive, todos os que sonhei. Por favor não te esqueças para que possamos ficar na porta dos sonhos, onde fomos realmente felizes. Nunca funcionamos fora dela, por isso por favor não te esqueças...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Lembrei me de ti, meu querido O...

Porque...

Quem foste, quem amaste, quem quiseste,
O que quiseste, o que fizeste...
O que escreveste, o que pintaste...

Está tudo vivo.
Está tudo onde o deixaste...
Somos é outros a pisar aquelas ruas,
Somos é outros naqueles cafés...
Mas somos iguais aos teus e aos anteriores.

Somos quem foste, amamos quem amaste, temos quem quiseste...
Temos o que quiseste, fazemos o que fizeste...
Escrevemos, pintamos, dançamos, cantamos, estudamos e bebemos tal como Tu.

Está tudo vivo.
Está tudo onde o deixaste...
Porque estamos aqui e celebramos-te com cada livro, quadro, dança, canção, trabalho e ressaca.

terça-feira, 16 de novembro de 2010




Tão mais cedo do que pensei
Tão melhor do que pensei.

Mais forte do que julguei
Mais eterno do que aquilo que criei.

O meio para o meu fim
O meu meio.

domingo, 14 de novembro de 2010


Vou ser pirosa e dizer que um dia vou fazer a versão cinematográfica do "Belle Epoque"

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Jugoslávia, 1947

-Estás feliz?

Improvisei tanto as minhas palavras naquele dia como as estou a improvisar agora.
Estávamos ali, só nós os dois. Eu amava-o, ele amava-me e estávamos ali só os dois.
Os seus olhos procuravam sossego nos meus que lhe fugiam. Naquele quarto da pequena casa perdida na serra, o seu corpo apertou o meu, afagou-me o cabelo, aproximou a cara da minha de tal forma que senti o chão a sair debaixo dos pés. Repetiu:

-Estás feliz?

Agora eram os meus olhos que procuravam os dele desesperadamente. Anui e deixei sair um “sim” que rapidamente foi abafado pelos lábios dele. A noite já tinha passado e a manhã ia a meio. Continuávamos ali, só nós dois no quarto de onde, pela janela víamos árvores até ao horizonte. Naquele momento pertencíamos um ao outro e a mais nada nem ninguém.
Eu não menti. Eu estava feliz. Naquele momento eu estava extremamente feliz. Mas sabia que era efémero. Deixei-me ficar ali deitada nos seus braços durante 2 dias. Só nós. Deixei-me acreditar que seria eterno. Não foi.
Aquele era o nosso sítio. Fugíamos para ali e ambos fingíamos que conseguíamos esquecer os próprios e os problemas do outro. Nunca o fizemos…
Víamo-nos todos os dias, falávamos todos os dias, riamos todos os dias. Mas só nos amávamos ali. Acho que ele nunca soube o quanto o amava. A falta que ele me faz hoje… o que eu não dava para voltar para os seus braços numa clara manhã de Novembro. O que eu não dava para voltar a ver o orvalho na grande janela do quarto…o que eu não dava para ser feliz de novo.